QUAIS SÃO OS SEUS PROJETOS?
Fui caminhar no Parque das Mangabeiras, Belo Horizonte, início de fevereiro, uma semana após a temporada de chuvas. Barulho de máquinas, funcionários, jardineiros, todos empenhados em restaurar o que foi danificado pelo tempo. Fecharam uma das passagens para as trilhas entre as árvores, pisos escorregadios, lodo, árvores caídas… Contornei o lago da praça principal e vi que as salas, banheiros e pequenas estruturas da administração há muito tempo não recebem manutenção. Modernização, sem chance.
Próximo à montanha, a rua principal estava aberta. Pude ir até o ponto mais alto, no mirante de madeira que permite admirar a cidade aos pés da mata. Passei em frente ao que um dia foi um viveiro de plantas; mesmo antes da pandemia já estava abandonado. Continua. O Parque é um lindo lugar.
Lembrei-me dos parques da Flórida, onde sempre vi projetos bem geridos em parceria com a sociedade. Em um deles encontrei um borboletário, na verdade, um centro de pesquisas. O tempo não permitia, por isso não comprei ingresso, mas, o hall e as salas onde pude entrar eram de elevada excelência. Por anos, tanto o borboletário como o parque estão bem cuidados e muito visitados. Por que não fazemos isso aqui?
Pessoas que amam orquídeas, borboletas, plantas, hortas, bichinhos interessantes, cuidarão de tudo voluntariamente. Empresas idôneas poderão desenvolver centros de pesquisa, projetos que atraem estudantes, turistas, praticantes do esporte, hobbys, passeios em família etc. Produtos poderiam ser vendidos, pesquisas sustentadas por todo o ano e a manutenção do parque favorecida. Claro, não dá, alguém diria: “temos outra cultura”.
Pensei nas dificuldades que eu enfrento em uma pequena comunidade de apenas quatrocentas pessoas. Estamos sempre necessitados de mais líderes, mais gente de excelência, visionários, responsáveis, que cuidam com amor e dedicação. Mesmo sendo um pequeno núcleo de missão e voluntariado, não consigo número suficiente de pessoas com encargo, cuidando diligentemente. (Graças a Deus pelos que já temos.) Imagina na administração de uma cidade, que não tem só parques, mas incontáveis desafios. A instrução desaparece em poucos dias, a manutenção se perde, as desculpas se multiplicam, a transferência de culpa se acumula, a visão vaza. Falta gente. Ninguém cuida como o dono, como aquele apaixonado pelo hobby ou pela missão que recebeu. Nem todos têm a mesma formação de excelência, nem todos têm os mesmos fundamentos, nem todos enxergam as possibilidades, poucos têm aquele pulsar de liderança que não deixa a peteca cair. Inevitavelmente, o prefeito, qualquer líder, todos nós, veremos as coisas mal cuidadas, se estragando, infrutíferas ou abandonadas.
Em todo lugar falta gente de excelência. Como levantar pessoas competentes para tantos desafios? Em uma cultura de improviso, descaso, onde muitos só querem levar vantagem e lucro, poucos se doarão com senso de missão.
O DESAFIO DE FORMAR PESSOAS
“A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara.” Mateus 9:37-38
Vou mais fundo nessas questões e vejo que além da falta de líderes de excelência, encontramos abundância de atrito nos relacionamentos interpessoais. Pode ser no condomínio onde moramos, no bairro, no ambiente de trabalho, na igreja ou na nação. Descubro, na experiência pastoral pelos anos decorridos, que dificilmente você muda essa realidade, mas, pode investir na mudança das pessoas.
Nossa missão é semear o Reino, ensinar os templates da Palavra, os modelos dados por Deus, conduzir as vidas para viverem o Fruto e os dons do Espírito. Excelência. É por isso que Jesus nos disse: “ide e fazei discípulos”. Não formamos membros de igreja, mas, discípulos de Cristo. Pessoas que se tornarão líderes, como Pedro, Tiago e João, que eram só pescadores, talvez iletrados, trabalho tosco, mãos calejadas, pouco conhecimento, mas se tornaram pregadores do Evangelho, canais do Espírito Santo, gente que se doa, opera milagres, transforma vidas, compartilha princípios, muda o mundo. Mesmo tendo sido Paulo o principal missionário da expansão do Evangelho para fora do circuito judaico, hoje, a Igreja em todo o mundo aprende com as cartas dos pescadores Pedro, Tiago e João. Por causa do Espírito Santo, os apóstolos se tornaram frutíferos líderes.
Além dos atritos, enfrentamos situações em que, mesmo debaixo de farta orientação, muitas pessoas não se atentam; não ouvem, continuam operando os mesmos erros. Por que tantos atritos, tanta falta de liderança, tanta gente que não enxerga, que a ficha não cai, não aprende, não ousa? Nas Escolas e Universidades, encontramos tantos alunos que não se dedicam, procrastinam, dissimulam, mas querem o mercado de trabalho. Talvez venham aprender a executar, tardiamente, mais ou menos, apenas o que é mandado. Por quê?
CONSERTOS, TRANSFORMAÇÃO
O Espírito Santo me faz entender que o nosso maior desafio não são as pessoas, mas lidar com a natureza corrompida. Não podemos nos acomodar a essa realidade, aceitar passivamente as deficiências do velho homem, “chutar o balde”, desistir, desanimar. Precisamos sim, buscar em Deus os recursos para lidar com os elementos da natureza corrompida.
Em qualquer comunidade venceremos muitos desafios, discernindo:
1. INGERÊNCIA MALIGNA REMOTA
Muitas pessoas são naturalmente vulneráveis, abrem brechas o tempo todo e acolhem dardos que perturbam. Essa estratégia maligna que atua na natureza corrompida será vencida pela implantação da Verdade, a Palavra.
“Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade, acolhei, com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma.” Tiago 1:21
2. HEREDITARIEDADE
Muitos herdaram, em família e pelo estilo de vida ou relacionamentos, ausência de princípios, falta de visão, despreparo, impiedade e pecados. Essa estratégia maligna que atua na natureza corrompida será vencida, mesmo que de forma mais lenta, pelo discipulado; proximidade em aliança, compromisso, serviço, amizade, transparência e amor. A dedicação na vida cotidiana dos pequenos grupos será selada com autoridade espiritual. No discernimento de espíritos, na ação da Palavra por intermédio de líderes idôneos, haverá transformação e amadurecimento.
3. FALTA DE ALIMENTAÇÃO CORRETA
Uma criança que não é alimentada adequadamente em sua estação de formação e crescimento, sofre danos que dificultarão a construção das redes neurais, o fluir de memória, raciocínio, capacidades cognitivas e não cognitivas. Da geração do povo de Israel no deserto, somente Josué e Calebe tinham mentalidade de conquista, por isso entraram na Terra Prometida. Por falta de nutrição ou ensino adequados, muitos são fracos. Falta alimento, falta ensino. Números 13 e 14
O novo nascimento permite ao discípulo começar de novo, se alimentar devidamente, aprender, construir redes neurais favoráveis, ousar em fé. Mas, alguns se converteram a Jesus e não foram discipulados. São como bebês que crescem e não aprendem a falar “por favor”, “dá licença”, “obrigado”. Ignoram os princípios cristãos, fazem tudo sem conhecimento, sem sabedoria, na força do braço, sem conselho, independentes, chutando. Para muitos desses será necessário a vigilância e manutenção cotidiana em misericórdia. Não ouvem, não aprendem, não se expõem ao novo, não se abrem à Palavra, nem mesmo aos conselhos. Como uma casa edificada na areia ou junto ao barranco, onde a umidade constantemente sobe e danifica as paredes, produzindo mofo, será preciso trocar rebocos continuamente, manutenção sem fim. Pessoas assim, você não consegue investir, talvez seja possível dar apenas um pouco de ajuda e investir nos filhos, alimentar corretamente a próxima geração. Os novos pensarão de modo diferente, como conquistadores, humildes aprendizes.
Alguns, mesmo não tendo recebido alimento adequado, com o novo nascimento, genuína conversão, pelo discipulado – ah! o Discipulado – são transformados pelo Espírito Santo. Aprendem, crescem, vivem a Palavra, o reino; se alimentam. A estratégia maligna que atua na natureza corrompida será vencida pelos vínculos e aliança, para o fluir do Pão puro, o alimento espiritual no Corpo de Cristo.
“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Romanos 12:2
4. POR ÚLTIMO, MILAGRES QUE NÃO SE EXPLICAM
Falei de gente que não se torna um líder efetivo por causa da ingerência maligna remota. Alguns, por hereditariedade, não rompem. Outros ainda, por nunca terem sido nutridos adequadamente. Mas considero que certas pessoas tomarão rumo por puro milagre.
Um amigo me contou a história de uma família que por quinze anos não frutificava na comunidade, só arrumavam encrencas. Quinze anos conflitando, muitos problemas, atritos; quinze anos enfraquecidos, levando tudo de forma carnal; cristãos nominais. Um dia a ficha caiu. Como que do nada, um milagre da parte de Deus – aliás, milagres só podem ser da parte de Deus – os fez enxergar tudo com novos olhos, mente renovada.
Vamos enfrentar a natureza corrompida com a expectativa e semeadura para novo nascimento e discipulado, ainda que só aconteça quinze anos depois.








